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Nasci no interior. Lá cresci e estudei até o Ensino Médio. Casei-me e mudei para a capital, onde estudei mais, tive filhos e assumi trabalhar como professora. E agora me aventuro a ser escritora. Escrevi "Mãe Dinha", Mazza Editora.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Re pa ra ção!


REPARAÇÃO JÁ!
PEREIRA, Juliano Gonçalves*
Enquanto não houver reparação neste país, a violência tende a aumentar.
A velocidade da vida contemporânea alienada pelo capitalismo selvagem leva-nos a refletir sobre a frase de Karl Marx “O animal se torna humano e o humano se torna animal” no final do primeiro de seus manuscritos, ainda no início do sec. XIX.
Fatos como o entendimento do assassinato do jovem assaltante com a granada na mão no centro do Rio de Janeiro há alguns dias atrás não mais assusta nossa sociedade. Um tiro certeiro na cabeça, uma execução em plena luz do dia, reproduzida em todos os telejornais da televisão brasileira, foi recebido com aplausos e aclamações pelo animal humano que acompanhava os minutos de tensão, que livrou a jovem moça de classe média da morte, e elevou o policial a condição de “Herói brasileiro”. O sensacionalismo da mídia, as deturpações do fato e das imagens impossibilitaram a nós telespectadores a refletir o valor da vida e do ser humano na sociedade brasileira, assim como do verdadeiro papel da polícia que só existe excepcionalmente com a tarefa de nos proteger.
Para os policiais que tentavam convencer o jovem assaltante a se entregar, o valor de uma vida não excedeu mais que 40 minutos do seu longo dia de trabalho. 40 minutos foi o suficiente para que o atirador julgasse de forma pragmática que a vida do assaltante deveria chegar ao fim. Não quero aqui fazer apologia ao crime, muito menos minimizar a culpa do jovem negro que foi executado pelo policial, penso que todo crime é passível de punição por isso luto por um novo modelo de segurança pública, exercitando meu papel de protagonista ajudando meu país a se tornar um país melhor para se viver, por isso julgo que os policiais negociadores foram infelizes por não ter conseguido convencê-lo a se entregar. Penso que o Estado brasileiro precisa urgentemente reparar os crimes históricos a sua população, sobretudo os mais pobres que em sua maioria são negros, ou situações como essa tendem a se repetir.
Desejo aqui incitá-los a uma breve reflexão sobre alguns dos acontecimentos deste mês de setembro de 2009. O governo federal divulgou na mídia nacional a “Política Nacional de Saúde do Homem”, com recortes de dados que assustam agente do quantitativo de homens que morrem por causas evitáveis neste país. Peço licença para pontuar que na propaganda que comumente vem sendo circulada, esqueceram de mostrar os rostos de quem mais morre que são os jovens negros e de quem mais mata que são os policiais. Os dados empíricos do IPEA (2008) não negam, jovens negros são exterminados dia pós dia, boa parte deles por policiais como no fato ocorrido dias atrás.
Algumas indagações que não me sai da mente:
Será qual foi o motivo do assalto néscio daquele jovem?
Será que ele tinha família?
Será que ele tinha filhos?
Será se ele estudou?
Será se tinha emprego?
Qual era o nome do garoto?
Quantos anos tinha?
Será se ele tinha sonhos?
Estas perguntas não me deixaram dormir nesses últimos dias. Não sei por que, mais por mais estúpido que tenha sido o garoto, por mais infantil que foi o ato de render aquela moça que durante 40 minutos ficou acuada com a granada em sua mão, imagino que alguém tenha chorado pela vida que se foi... tão rápida e tão barata... tão fácil...
Uma canção nascida nos subúrbios brasileiros revela “A carne mais barata do mercado é a carne negra...” depois desse episódio entendo melhor a letra.
Como nos tornamos tão animais? Como nos desprendemos do humano e galgamos nossas certezas em sentimentos tão rudes e animalescos? Perdemos a noção do valor insubstituível da vida. Conversando sobre o assunto com alguns dos meus, percebo o quanto já se naturalizou tamanha barbárie. A dicotomia entre a vida e a morte. A corda sempre quebra do lado mais fraco.
Sei das justificativas obvias e latentes que levaram o policial a tomar tal atitude, elas foram mais que explicadas nos jornais, na entrevista da garota refém e na fala do próprio policial “herói”, mas fico pensando na possibilidade de ter havido mais 10 minutos de conversa, mais cinco minutinhos, será que ele não se entregaria? Ou ainda me pergunto, será que o olhar genuíno do garoto assustado com a condição que o assalto havia o levado não faria dos policiais negociadores os verdadeiros heróis daquela tarde?
Infelizmente o que consigo apurar ao fim dessa reflexão, é que nossos policiais devem ser mais bem treinados e preparados para negociar e para serem mais bem sucedidos com a manutenção da vida em caso como este, ou continuaremos tendo uma das polícias que mais mata no mundo, responsável pelos autos índices de homicídio do país.
A cena do tiro certeiro na cabeça do garoto com tamanha brutalidade que arranca seu boné não me sai da cabeça. Sentenciado a morte por um crime que não deu certo. Aquele garoto estava mais assustado que todos ao seu redor, seu medo aparente era tamanho que por várias vezes retirou e colocou o pino da granada, nem imaginava que sua vida estava por um fio.
Confesso não identificar quem foi à maior vítima nesta história. Embora com todas as acusações e provas e com o fato consumado, ainda assim não sei quem mais foi vítima. Segundo os argumentos de Marx, o sistema capitalista produz esse sujeito, pois a divisão injusta de bens que ainda hoje produz milhares de miseráveis obriga as pessoas a transgredirem contra o Estado. Associado ao racismo inconstitucional que qualifica bem o lugar de um jovem negro sempre fadado ao subemprego, ao serviço braçal, a subserviência, resulta neste ser bandido, assaltante que rouba, mata e morre. A reparação material que foi negada após 13 de maio de 1888, dia da abolição da escravidão, já rende hoje 121 anos, e ainda os negros estão nos piores lugares e nas piores condições sociais deste país, fazendo do racismo nas palavras de Kabengele Munanga um crime perfeito e da geografia do corpo um fator primordial para a execução.
Engraçado como a injustiça é latente no Brasil. A real democracia ainda está longe de acontecer. Nesta mesma semana um empresário destruiu mais de um quarteirão no centro de São Paulo, vitimando vários inocentes, destruindo patrimônios públicos e particulares, trazendo medo, terrorismo e horror ao povo brasileiro, diferente da cena com o jovem assaltante com a granada na mão que não explodiu, mas que o levou a morte, enquanto o empresário foi mais uma vez sentenciado e responde em liberdade todas as acusações.
Isso precisa mudar, porque enquanto o estado não fizer as reparações históricas ao seu povo abandonado nas favelas e guetos, nas periferias, subúrbios e semáforos a violência tende a aumentar, o número de jovens assassinados continuará a subir e a sociedade brasileira se distanciará cada vez mais de uma sociedade de humanos, confirmando o que já dizia Karl Max e eu sinceramente não suporto mais presenciar tudo isso.
Precisamos de um mundo melhor;
Precisamos rápido de um país mais justo e igualitário, ou então mais pessoas tenderão a morrer e eu não quero ser a próxima vítima.
Juliano Gonçalves Pereira é Preto do Quilombo Urbano Pereiruxe, Professor, Pesquisador, Graduado em Educação Física pela Universidade Estadual de Montes Claros - UNIMONTES, acadêmico do curso de História pelo Instituto de Educação Superior Ibituruna – ISEIB; Diretor do Centro de Restauração e Desenvolvimento Humano para Dependentes de Substâncias Psicoativas Rainha da Paz, Membro do Centro de Referência Cultural de Montes Claros Capoeirando, Membro da Rede Nacional de Controle Social e Saúde da População Negra e da Rede Lai Lai Apejo, e Representante da Juventude Negra de Minas Gerais na Coordenação do Fórum Nacional de Juventude Negra.

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O que poetizam... (pra mim e de mim)

Poema

Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora, leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim.

(Manoel de Barros)



E X A U S T O


Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente
Muito mais que raízes.

(Adélia Prado)

Poema de Mario Quintana em A cor do invisivel

Há três coisas cujo gosto não sacia
o pão, á água e o doce nome de Maria.


One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

(Elizabeth Bishop)

Die Liebenden
Friedrich Hölderlin

Trennen wollten wir uns? wähnten es gut und klug?
Da wirs taten, warum schröckte, wie Mord, die Tat?
Ach! wir kennen uns wenig,
Denn es waltet ein Gott in uns.


Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"