Quem sou eu...

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Nasci no interior. Lá cresci e estudei até o Ensino Médio. Casei-me e mudei para a capital, onde estudei mais, tive filhos e assumi trabalhar como professora. E agora me aventuro a ser escritora. Escrevi "Mãe Dinha", Mazza Editora.

terça-feira, 12 de julho de 2016

O MENINO DA CAMISA DE MANGA ARREGAÇADA


Menino de camisa de manga arregaçada você vê por ai todos os dias
Uns com caixas de frutas nas ruas movimentadas, caixas de balas...
outros com jornais nas esquinas, nas avenidas, aproveitando o sinal vermelho prá um:
  • Ao jornal!
E outros ainda com chocolates...
Um menino, como nenhum outro qualquer acordou cedo com a cabeça cheia de planos* e os pés no chão*.
*Planos são projetos, estratégias que a gente faz para conseguir alguma coisa. E, quase sempre alcança.
*Pés no chão por que sabia o alcance de sua intenção: desde bem pequeno acostumou-se a não ter mais do que precisa, e muitas vezes precisando mais.

Um dia o menino saiu de alguma beirada da cidade com uma caixa de engraxate.
(A caixa tinha dentro de si os anseios do coração do menino. A esperança... a de seus olhos.)

Quer conhecer esse menino?

Ele anda pelas ruas com passos de segurança.
Na cabeça, balança um sonho.
O coração? Bate a alegria de viver.
É difícil imaginar, sonhar e ver o mundo desabrochar por todos os lados, os anseios, as vontades e as delícias de ser menino.
Mas ele segue.
Os  acontecimentos não têm estacionamento em vida de menino, acontecem.
Quando o menino sai de casa é a hora em que o dia acorda esperanças no céu azul da imaginação*.

*céu azul transforma qualquer tempo em felicidade.

A  camisa que ele usa vestiria um corpo maior do que o que ele tem.
L       a            r        g      a, GRANDE!
Tão larga e tão grande que pode esconder os desejos do menino e ainda caber mais alguns.
Há pequenos buracos em toda “c a m i s o n a.”
Buracos que adivinham o calor do dia que o menino tem que enfrentar. 
Ventilação para o seu corpo fino, pequenino.

A cor?

A cor é a cor da vontade que cresce dentro da criança que é.
E criança é sempre colorida de vida.
Criança é furta-cor!
Bola de sabão dançando cores ao embalo da brisa. 
Frágil e bela.
O menino caminha, emaranhando sonhos as ruas.
Assobio nos lábios, como se caminhasse no quintal da própria casa.
Caixa a tira colo.
Nos olhos, passeiam todos os movimentos do mundo.
Estampam as vitrinas ainda escondidas atrás das portas de aço. 
Olhos sonolentos das lojas que não abriram.
A caixa de engraxate que o menino leva pendurada, pesa-lhe no ombro. Descansa-a no chão. 
Olha as pessoas que passam, aglomeram-se, espalham pernas, braços, sacolas e pastas pelas mãos.
Quer seguir. A caixa resiste ao esforço do menino. Adivinhando o pensamento de um sapato apressado.
Triste sapato descuidado!
Sapato que descansa sobre ela poeiras de longas caminhadas, pedindo lustro e mãos hábeis no trabalho.
Menino que conhece o ofício de engraxate põe as mãos a obra.
Ofício não é só o papel que se pede na escola, é trabalho mesmo!
Engraxate era o seu trabalho.
Trabalho que lhe dava uns bons trocados para ajudar em casa, fazer render o arroz.
Ele sabia dar brilho de sapato novo a qualquer sapato ofuscado que aparecesse.
Sapatos que gostam de cuidado agradecem o carinho. Ofuscando de luz os olhos do dono na magia da limpeza.

Assim...
os primeiros trocados encheram o bolso do menino de satisfação.
A manga enrolada da camisa do menino escorregava e caia-lhe pelos ombros magros, delgados...
Marcava a alça da caixa de engraxate, fundo a sua pele.
E o menino segue até o ponto onde encontra o caminho da sua realização.
Conversa, conta os seus sonhos, e a caixa o entende. A caixa ouve o que ele lhe diz.
Pode ser difícil imaginar a alegria do menino, que de menino mesmo só tem o tamanho, a pouca idade e também... a liberdade
Alegria de menino que mais que moedas para ficar alegre, é viver vida de menino.
Menino da camisa de manga arregaçada fica triste mesmo, apenas quando a barriga ronca vazia.
Ele tinha comido pão dormido com água. Trazia ainda na boca o gosto do pão.
Todos os dias, o menino sai pelas ruas da cidade (conhece todas elas)
Sabe das horas em que é mais rápida e confusa sua circulação, por isso sai cedo. Cedo tudo dorme ainda. Cedo o sangue das ruas circula lentamente.
Quando o movimento aumenta, é bom para o menino, que já arrumou um ponto, descansou a caixa de engraxate jeitosamente.
É assim que ele tem oportunidade de ver crescer a esperança demudar pra um barraco maior, de andar de bicicleta...
O trabalho fica farto. E as moedas escorregam da mão dos donos dos sapatos para o bolso do menino engraxate de pés no chão.


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O  Pássaro e a Flor


Surpreendeu-me ver aquela flor solitária ali.
São as cores vivas das pétalas sedosas que a gente ganha sanha de querer ter.
É preciso ter uma flor nascendo, crescendo na aridez do coração para evitar a  tentação de sair por aí podando sonhos.
A transparência do orvalho (oculta) a vida secreta da flor.
Por isso a flor tem cálice...
O colo – cálice da flor acolhe o orvalho num longo aconchego.
E ele vira segredo dentro da flor.

Liberdade de pássaro é ir e vir, nunca ficar.
Os olhos do pássaro perderam-se naquele mistério.
Presenteou-o um perfume embriagador.
(A brisa mensageira levou-o.)
Bateu descompassado, ficou coração desajuizado no compasso do coração da flor.
Sentiu a alquimia...

Flutuavam os olhos alados intensidade e cor.
Não sei se foi pra celebrar a harmonia das diferenças...
...  que os dois se aproximaram
cada um adivinhando o desejo que o outro escondia.
E o pássaro beijou a flor.

E a história se repete no beijo que o beija-flor dá em cada flor.


Autora: Maria do Carmo Barbosa Galdino

Madu Galdino

sábado, 27 de dezembro de 2014

Despedida

Sai para nosso encontro naquela tarde, fui disposta a lhe dizer que não a queria ver mais naquele lugar espremidinho e asséptico. No Natal havia ficado o vácuo da sua ausência. Ao chegar, notei que naquele espaço pequeno havia mais apetrechos  que me fizeram intuir que havia tido uma luta pela vida. Mostravam ter reativado o coração. Olhei o enfermeiro de plantão e ele parecia não ter palavras pra me dizer. Apenas me falou que o responsável se encontraria comigo ao final da visita. Meus olhos vasculharam o ambiente à procura de outros sinais. Fixei-me no corpo que ali estava deitado. Olhos fechados, respiração difícil. Enfiei minhas mão debaixo das cobertas, como sempre o fazia a cada visita, procurando o calor das suas mãos e do seu colo e não o encontrei. Meu coração ficou miudinho no meu peito, parecia que até o ar escapulira daquele lugar. Isso me deu coragem e para lhe dizer: 

Mãe, não é isso que quero pra você. Não quero vê-la assim nesses aparelhos, deitada nessa cama sem seu riso gargalhante, sem os abraços apertados, sem seu olhar  feroz por causa das nossas brincadeiras...  Lá em casa está tudo ajeitado. Os meninos já não precisam de cuidados, já estão encaminhados. E que fora a saudade eu estava bem. Fui taxativa e lhe disse que podia ir.

Ao sair, fui ter me com o médico de plantão. Ele me disse com olhar atento: na medicina se temos uma porta pra abrir, a gente abre. Se tivermos janelas também vamos buscar saídas...  E que  tudo o que poderia ser feito, havia sido feito.

Sai de lá um tanto aérea. Um tanto não eu.

Chegando em casa, telefonei e avisei parentes e amigos que poderiam vir se despedir. Cada um tinha um pouco de médico e de curandeiro para adiar aquele momento. Ouvi-os e depois de um banho relaxante, fui dormir.

Mal havia me ajeitado pra dormir, depois de chorar nos braços que me abraçavam, o telefone tocou. Recusei-me a atendê-lo. Aquela notícia eu jamais quisera ouvir.

Já faz onze anos deste adeus. Sinto a ausência, mas lembro dos risos, dos abraços, das histórias que contava, do sabor de seu tempero, do su cheiro, do som da sua voz. Lembro de seu nervosismo e de como me exemplava e das surras de carinho que me dava. É assim que ela permanece (é) terna!


Maria do Carmo Barbosa Galdino

Madu Galdino 27/12/2014

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Mês de Dezembro

Dezembro é um mês de contradições para mim. Dele guardo recordações que são um deleite como tia Santinha que vinha do Rio de Janeiro, trazendo histórias entre o perfume das maçãs e o cheiro do mar impregnado no pacote de camarões. Tia Cici, que morava na mesma cidade, sempre chegava com a compota de doce de figos verdinhos. Meu pai cobiçava o doce e a compoteira. E ela entre risos o chamava de Touro.

Em casa os preparativos envolviam adultos e criança. Varrer, espanar, limpar vidros, lavar toalhas de mesa, deixar brilhando a cristaleira com seus cristais. Arrumar a árvore de Natal.

Na cozinha, a magia se fazia. Mãe tinha que fazer sete tipos de doces diferentes. Entre esses não podia faltar o doce verde, de cidra, figo ou de mamão. O preparo ocupava dias... Alguns exigiam ficar de molho pra apurar o sabor. Carnes, salgados e doces, cada um a seu tempo. Matava-se o porco, peru e frango para a mesa ser farta no Natal, tanto para nós, quanto para os vizinhos que recebiam sua porção de carne e toucinho. Alguns gostavam também do chouriço.

Era um mês movimentado. Tantas atividades. Muitas visitas! Mãe preparava as carnes, os doces e o fogão parecia incendiar a cozinha recém pintada de amarelo, não parava de fumegar. E mãe dizia que tinha que aproveitar o forno e fazia biscoitinhos de quebra-quebra, rosquinhas de sal amoníaco, broinhas e cubus. E o strudel que era um pão assado com presunto e queijo. A casa ganhava cheiros e brilhos.

Foi num período assim de preparativos natalícios que tia Cici nos deixou. Ela havia dado à luz um bebê que também não resistira. Preparou, como todos anos fazia, o doce de figo na linda compoteira e o levou para meu pai, mas no Natal ela já não mais participou. O Natal daquele ano foi o mais triste que já vivi na minha vida.Todos reunidos, mas o espírito da festa não se fazia presente inteiramente.

Algum tempo depois, nesta mesma lida de doces, quando cortava as cocadinhas, que fiquei sabendo que  não era mais criança. Mãe me explicou que aquela primeira menarca que o Natal me presenteara, significava que eu já era uma mocinha. Que não poderia mais ficar pulando por aí como uma cabritinha. E eu chorei a minha  infância perdida sobre as alvas cocadinhas. Um choro inconsolável!

Também há as alegrias como lembrança: a formatura do 4º ano do grupo com presenças marcantes, meu padrinho, tia Santinha, Seu Alberico, Mãe Vé, minha avó... Foi um dia muito especial. Ganhei meu primeiro relógio de ouro e isso era um marco.

Foi num mês de dezembro que sai para uma viagem sozinha. Fui para a capital ficar uma semana com amigas que haviam mudado de cidade. Essas amigas eram constantes, diárias e com elas socializei as primeiras vivências de adolescente e vivi a separação que cartas nunca bastavam para selar.

Algum tempo depois, meu casamento no último dia do mês colocou definitivamente dezembro na minha agenda de comemorações, pois marcou o fim de um ciclo de vida e o início de outro. Eu deixava a casa onde nasci, o aconchego dos meus pais e buscava constituir a minha família, sem esquecer as raízes que deixava. E o natal do meu marido é no dia de Natal que passamos a comemorar duplamente.
A chegada das crianças acordou em mim as delícias do preparativo do Natal. E assim incorporamos novos rituais, como o de deixar um pratinho para o Papai Noel com o que fazíamos de guloseimas para o Natal.

Outro dia que definitivamente marcou dezembro como perda, foi a despedida de minha mãe do banquete da vida. Foram dias vividos entre a UTI e a organização de um Natal que em muito me lembrou do Natal quando perdemos tia Cici.

Entretanto os encantos do mês de dezembro ficaram mais sedimentados. Foram essas pessoas que marcaram meu viver e me deram o sentido de comemorar e vibrar com a vida que é o símbolo central do Natal. Vida que precisa de cuidado, de uma mesa que garanta o sustento e a alegria de poder partilhar esse tempo que nos congrega.

Amigos e amigas vieram enriquecer, não apenas o dia com mais encantos, mas o mês com seus aniversários, tornando cada ano mais significativo o Natal e inesquecível o mês de dezembro.




Maria do Carmo Barbosa Galdino - Madu Galdino 17/12/2014

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

De um Tempo de Namoro

Sou do tempo em que namoro começava com um olhar. Olhar que se surpreendia  em descobrir um outro que também o olhava. Essa linha que estabelecia uma ligação invisível entre dois seres. O olhar, a primeira carícia que existia. Sempre buscava o outro olhar que  o encantava. Averiguava, indagava, descobria, acompanhava, apreciava o olhar que olhava. Havia sempre olhares outros que acompanhavam esses olhares trocados. Marcava o encontro. Momento único de olhar que se aproximava do outro olhar. Conhecia-se o outro pela palavra que guardava. A fala e a audição ganhavam seu tempo de delícias. A palavra se tornava outro liame. Pela palavra o afeto se estabelecia. Palavra que desvela um ao outro. Outra etapa que inebriava. O som da voz da pessoa, que antes olhava, tornava-se uma música que não se cansava de ouvir. A entonação, a melodia da voz modulava os encontros, acompanha os sonhos e tornava novidade os dias que se vivia. Esse era o momento do início do namoro, quando a voz e ouvido se encontravam. Passado um tempo em que a palavra se tornava desejada, percebia-se o toque de dedos, mãos que se esbarravam. Eram sensações inefáveis. Ia do enrubescimento à taquicardia. Até o momento em que as mãos se abraçavam. Sentiam a maciez ou a aspereza do toque. Brincavam dedos com dedos. Entrelaçavam-se. Os olhos descobriam as mãos e observavam linhas, aperto... Novamente o tempo se perdia no toque, na carícia que se estabelecia. E cada momento era marcado por uma música que se fazia ouvir.

Era assim que aos poucos o namoro se fazia: carícia de olhares, gestos, toques, som de vozes. O beijo acontecia como se selasse todo esse percurso de descobertas. Era o auge. Tão esperado. Tão sonhado! Acontecia entre olhares, murmúrios, mãos que se tocavam e buscavam o rosto que tanto inebriava. Momento único. sempre lembrado, sobretudo pela menina que vivia esse tempo de novidade e descoberta.

No dia 16/11, serão 45 anos. Sempre comemoramos esse momento da palavra. Foi o dia em que cada um se deu a conhecer pela palavra pronunciada. Início de namoro. E até hoje temos esse hábito de falar um para o outro. Muitas palavras já trocamos. Tantas palavras já ouvimos um do outro! Palavras que nos permitem sempre esperar novos dias, pois certamente haverá ainda muito a dizer, muito ainda será palavrável. 

Presentes!

Presentes!
Presente no meu aniversário!

O que poetizam... (pra mim e de mim)

Poema

Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora, leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim.

(Manoel de Barros)



E X A U S T O


Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente
Muito mais que raízes.

(Adélia Prado)

Poema de Mario Quintana em A cor do invisivel

Há três coisas cujo gosto não sacia
o pão, á água e o doce nome de Maria.


One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

(Elizabeth Bishop)

Die Liebenden
Friedrich Hölderlin

Trennen wollten wir uns? wähnten es gut und klug?
Da wirs taten, warum schröckte, wie Mord, die Tat?
Ach! wir kennen uns wenig,
Denn es waltet ein Gott in uns.


Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"